Vamos falar de masturbação feminina… Parte II

Olá!! Estou de volta para a prometida segunda parte deste artigo. Para quem não leu a primeira (onde eu partilho a minha experiência pessoal com a masturbação enquanto criança) aqui fica o link.

Sabem que hoje (dia 28 de Maio), se celebra o Dia da Masturbação e o direito ao auto-prazer? De acordo com a Wikipedia este dia foi declarado pela primeira vez como Dia Nacional da Masturbação em 1995, nos EUA, em honra de Joycelyn Elders – que ocupava a posição de “Surgeon General” (basicamente o cargo de mais alto responsável pelos assuntos de saúde pública nos EUA) até 1994 quando foi demitida, pelo então presidente Bill Clinton, por sugerir que a masturbação deveria fazer parte do currículo das aulas de educação sexual. Este dia celebrativo estendeu-se mais tarde a todo o mês de Maio que passou a ser Mês da Masturbação. 

Continuando com a minha história. Pouco tempo depois de descobrir que a masturbação era algo natural e saudável comecei a experimentar mais com o meu corpo e a minha sexualidade, a descobrir o erotismo e a pornografía (que há 20 anos passava nalguns canais generalistas para lá da meia noite e depois passou a existir em canais por cabo como o velho canal 18), mas sobretudo a fantasiar usando a minha própria imaginação. Masturbava-me para experimentar e descobrir como obter diferentes formas de prazer, para desfrutar de momentos de solitude, para aliviar o stress e tensões da vida diária, para passar o tempo, depois de ter ficado excitada com alguma cena erótica da novela da noite ou enquanto, às escondidas, via os tais filmes que davam depois da meia noite e que a minha mãe dizia não serem para a minha idade.  

Não me lembro da primeira vez que tive um orgasmo, não faço a mais pequena ideia, na realidade nem tenho memória dos tempos em que não conhecia essa sensação. Quando comecei a experimentar a sexualidade como algo que envolvia o contacto físico com outra pessoa já controlava bastante bem os ritmos do meu corpo. Lembro-me bem da primeira vez que tive um orgasmo com um rapaz, enquanto dava uns amassos com a roupa vestida, ao meu namorado da secundária. Lembro-me de ele me perguntar se tinha sido o meu primeiro (orgasmo) e de eu responder “claro que não”.   

Há uns tempos mandaram-me este cartoon:

Educação sexual?

Será que a pessoa que mo enviou ou acha que a educação sexual é desnecessária numa idade em que muitos dos jovens já iniciaram a sua vida sexual ou que falar de masturbação aos mais novos é desnecessário? Eu olho para este cartoon e penso: que “foder” e saber dar prazer à parceira/ao parceiro são coisas bem diferentes, que sexo não é só penetração, que o parvo que faz a pergunta à professora talvez não tenha nada a aprender com relação à auto-masturbação mas provavelmente não sabe como tocar uma vulva, etc.. Eu penso que a educação sexual devia ser ensinada nas escolas e que o currículo devia ir muito mais além dos métodos contraceptivos, do sistema reprodutor e do planeamento familiar – afinal 99,9% das vezes que fazemos sexo a coisa não tem nada a ver com procriação e tudo a ver com prazer, intimidade, partilha, vulnerabilidade, desejo, erotismo, excitação, paixão, etc.   

Na mesma altura as minhas amigas também começavam as suas actividades sexuais com parceiros mas ninguém falava muito de prazer feminino.  Com a maturidade e a perda de alguns tabus as conversas sobre sexo e prazer começaram aumentar e comecei a perceber que algumas amigas nunca tinham tido um orgasmo, isso sobretudo acontecia com as que também nunca se tinham masturbado. Realmente acho que posso contar pelos dedos duma mão as conversas que tive com amigas sobre masturbação antes de chegar aos 25, já sem falar no facto de que a masturbação feminina nunca era tema de conversa em grupos mistos. Mas creio recordar que possivelmente na minha adolescência e princípio da idade adulta tenha ouvido falar de “punhetas” pelo menos duas vezes por semana.  

Em meados de 2019 o fenómeno do Satisfyer Pro invadiu as redes sociais, os meios convencionais e os diálogos entre amigos. Aqui em Valência (onde vivo) até na rua às vezes se podiam apanhar pedaços de conversas sobre este novo vibrador. Para mim o mais interessante do fenómeno não foram os relatos sobre a eficiência do aparelho, nem a forma como se esgotava nas lojas, em poucas horas, sempre que o stock era reposto; o mais interessante foi a banalidade com a qual finalmente se começou a falar do auto-prazer feminino. De repente um montão de mulheres (ao falarem sobre as suas experiências com o famoso “succionador” de clitóris) admitiram publicamente que se masturbavam. E isso trouxe, para o espaço público, o tema da masturbação feminina, com uma normalidade nunca antes vista. 

Entre os “reviews” que li e ouvi, os mais comuns contam como algumas mulheres, graças a este aparelho, finalmente puderam descobrir como era ter um orgasmo e como outras estão super felizes por agora conseguirem atingir o clímax em muito menos tempo (muitas falando em dois minutos). Apesar de ficar feliz por todas elas não posso deixar de questionar se isto não é mais uma pseudo-solução daquelas que a nossa sociedade acelerada e hiper-consumista tem tendência para produzir. Acho que é uma falsa solução porque acredito que o problema parte do facto de essas mesmas mulheres não terem passado o tempo necessário a descobrir os seus próprios corpos, as suas próprias vulvas, os seus próprios clitóris, não terem praticado o auto prazer o suficiente para conhecerem os seus próprios gostos e ritmos. O Satisfyer Pro ajuda-as a ter o orgasmo, mas se o aparelho ficar sem bateria lá se vai a possibilidade de ter o prazer desejado. Ou pior, provavelmente numa relação sexual com outra pessoa continuam sem saber guiar x outrx no caminho para levá-las ao clímax. 

Pessoalmente este aparelho em especial não me despertou muita curiosidade, nunca tive problemas para atingir o orgasmo auto-induzido, quanto à rapidez geralmente tento fazer o prazer durar mais tempo e fazer o orgasmo chegar mais tarde, mas se quiser também consigo ter um orgasmo em menos de um minuto. Talvez eu seja uma sortuda e biologicamente sei que todas somos diferentes mas custa-me crer que quem realmente pratique não consiga aperfeiçoar a técnica. 

Voltando ao início desta reflexão acho que se a masturbação feminina fosse parte da conversa sobre uma sexualidade saudável e sem tabus, que se se falasse sobre este tema de maneira menos tímida, que se entre amigas houvesse espaço para partilhar experiências e falar abertamente sobre prazer, que se em educação sexual se falasse sobre outros assuntos que também são importantes (além dos já falados), talvez menos mulheres se queixassem de que não têm relações sexuais satisfatórias. Porque está claro que é importante que x parceirx tenha em conta o nosso prazer, mas se nem nós sabemos aquilo de que gostamos é muito difícil que alguém o descubra. 

Hoje não vou deixar questões para vocês. Animo-vos a que deixem as questões ou os comentários que acharem pertinentes. Porque é necessário que comecemos a falar disto como falamos de receitas, de desporto, e de outras coisas do dia-a-dia. Se não for agora, quando? Se não fores tu, quem? 

Feliz dia Internacional da Masturbação para todxs!! 

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Publicado por

Nico

Sou professora na universidade, empregada de loja, guia turística, designer de moda com a minha própria marca de acessórios, escritora, estudante, praticante de Yoga, activista e muitas outras coisas.

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